Preservação de variedades

 

C. leopoldii forma pelórica “Sebastião Vieira”

 

Um dos aspectos mais apaixonan­tes da arte de cultivar orquídeas e que nos cativou desde que começamos a estudá-las e colecioná-las no início dos anos oitenta, é a possibilidade de através de cruzamentos e do uso dos conceitos básicos de genética, con­seguir melhorar, do ponto de vista técnico, mesmo as espécies mais visto­sas, além de produzir flores com no­vas características, seja cruzando-se plantas de mesma espécie ou de es­pécies diferentes.

Do ponto de vista genético, as pos­sibilidades são sempre enormes quando cruzamos duas plantas com características diferentes. As suas cargas genéticas são mistura­das e sobressairão as características dominantes. Se as duas plantas fo­rem escolhidas com alguns critérios, as chances serão muito ampliadas. Devido ao tempo relativamente longo para se ver os resultados (em média 5 anos), é aconselhável que o orqui­dófilo, antes de começar a fazer cru­zamentos, estude os conceitos bási­cos de genética e mais im­portante ainda, que obser­ve os resultados ( bons ou ruins), de cruzamentos fei­tos por outras pessoas. Pesquisas, conversas e observações ajudam muito.

Orquidófilos experien­tes são sempre excelen­tes fontes de pesquisa e quase sempre estão à disposição para ajudar.

A falta de critérios e conhecimen­tos básicos tem levado muitos orqui­dófilos a desistirem de cruzamentos. Após longos anos de espera os re­sultados podem ser frustrantes. Entretanto, a renovação da orquidofilia passa ne­cessariamente por novas plantas se­jam híbridos ou espécies. Nada mais desanimador do que ver ano após ano as mesmas plantas nas exposições, tendo-se que premiar apenas as mais bem cultivadas.

Outro aspecto, talvez o mais importante, refere-se à perpetuação de espécies e variedades.

Muitos clones têm sido perdidos pelo egoísmo ou ignorância de seus proprietários que se recusam a fazer cruzamentos, negociar mudas ou mesmo ceder políneas de suas plantas.

Essa atitude contrasta com aquela de pessoas preocupadas em preservar e aumentar, através de cruzamentos, o número de variedades das espécies de orquídeas colecionadas. Felizmente o número desses parece ser maior que o daqueles. Nesse artigo mostramos um exemplo, com o trabalho que desenvolvemos com a Cattleya leopoldii forma pelórica "ANITA GARIBALDI" e que esperamos sirva para a preservação de muitos outros clones.

 

Esse clone excepcional de Cattleya leopoldii foi encontrado em Laguna, SC. Devido a sua origem homenageamos a heroí­na daquela cidade dando o nome de "ANITA GARIBALDI".

Essa planta, que corresponde em forma a C. intermédia aquinii, tem suas pétalas transformadas em labelos com colo­ração fortemente purpúrea e com as sépalas marrons esverdeadas.

    Assim que conhecemos essa plan­ta, ficamos entusiasmados com as possibilidades de cruzamentos tendo visto o que a C. intermédia aquini con­tribuiu e continua contribuindo, a nível mundial, para o desenvolvimento de híbridos flameados e mesmo na C. intermedia, para o melhoramento de flâmeas, aquiniis e pelóricas.

Dessa forma iniciamos, aí pelos anos noventa, uma série de cruzamentos com plantas que apresentassem labelos com alguma ca­racterística marcante.

 

Porque o labelo? Bem, já que a C. leopoldii "ANITA GARIBALDI" possuía as pétalas transformadas em labelos e sabendo que esta característica se transmite numa percentagem da pro­gênie da C. intermédia aquinii, ima­ginamos que o mesmo iria ocorrer na C. leopoldii. O que não imaginamos é que tivésse­mos plantas tão perfeitas já na primei­ra geração, como a planta resultante do nosso cruzamento núme­ro 61: C. forbesii "PONTE" x C. leopoldii "ANITA GARIBALDI", um antigo híbrido primário de nome C. Dayana. (fotos abaixo)

 

       

 

A C. forbesii em questão é uma planta quase albina com pétalas e sépalas verde claro e labelo com o tubo branco externamente e amarelo com estrias douradas internamente.

 

Desse cruzamento aproximada­mente 30 % das plantas saíram fla­meadas, com diversos graus de in­tensidade, mas sempre mostrando as estrias da C. forbesii nas flâmeas. Como era esperado, nenhuma planta saiu pintada. É que as pintas são recessivas quando cruzamos plantas pintadas com plantas não pintadas, como as Laelias, por exemplo ou mes­mo Cattleyas sem pintas com o forbesii.

Aproximadamente 80% das plan­tas saíram com as características de ambas as plantas bem misturadas enquanto mais ou menos 10% saíram mais parecido com a C. forbesi e 10% mais parecido com a C. leopoldii típi­ca.

As plantas floriram com quatro anos após a semeadura e florescem duran­te todo o verão. Nesse momento, abril de 2003, estamos com uma belíssima C. Dayana flâmea florida tardiamente.

A descendência de C. leopoldii "ANITA GARI­BALDI" continuou a nos trazer surpre­sas agradáveis e já vimos flores flameadas es­petaculares dos cruzamentos de C. aclandiae, C. velutina, C. bicolor, C. dormaniana, BLC. Memória Helen Brown, L. pumila e obviamen­te com a própria C. leopoldii da qual usamos a planta tipo, a variedade flâ­mea, a albina e a coerulea. Com essas duas últimas, já estamos na segunda geração e a expectativa é grande!

 

       

   C. leopoldii X C. aclandiae                                C. leopoldii X C. granulosa

 

Com os cruzamentos entre as C. leopoldiis o resultado não poderia ser melhor. Ano após ano temos visto florirem flâmeas, peloriadas e trilabelos incríveis, com as quais jamais sonhamos!

Temos ainda a florir outros cruzamentos, como por exemplo, com C. schilleriana, na tentativa de colocar seu maravilhoso labelo nas pétalas.

Como se pode ver os próximos anos serão de muita expectativa e temos certeza de que elas serão superadas.

    

Poderíamos, entretanto, estar há anos apreciando “apenas” a floração dessa planta rara e fantástica, mas isso seria desprezar todo o seu potencial genético e a criação de novas variedades de forma e colorido.

Assim, se você é o feliz possuidor de uma planta rara, por favor, perpetue-a!

 

Carlos Gomes

Floripa-2003

Orquidário Carlos Gomes