Laelia purpurata e seu melhoramento

as vermelhas”

 

Rainha das orquídeas! Para nós, orquidófilos do sul do Brasil, as outras serão sempre as “outras”! Cativante, apaixonante, escravizante! Quem por ela se apaixonar, jamais a abandonará! Imponente, majestosa, inconfundível!

É a Laelia purpurata!

 

L. purpurata flâmea “Saci Pererê

Desde que François Devos a coletou aqui na Ilha de Santa Catarina, em 1846, ela vem encantando colecionadores em todo o mundo. Suas qualidades são muitas: flores grandes, cinco ou seis por haste floral, labelo proporcional, bem formado e de coloridos sempre belos, seja na cor púrpura, padrão da espécie e que lhe emprestou o nome, ou em outras cores, tão variadas que praticamente nenhuma outra espécie a iguala.

Alguns coloridos dela são únicos em flores, somente ela os possui!

Vegeta em ambientes tão variados que nem parece a mesma espécie quando se juntam plantas que crescem no escuro das matas com aquelas que crescem sobre pedras a pleno sol, geralmente à beira mar ou em morros próximos. Aquelas com quase um metro de altura, essas não ultrapassando um palmo.

É ela a responsável pela origem e crescimento da orquidofilia em Santa Catarina, pois por muitos anos a maioria dos orquidófilos do Estado dedicou-se exclusivamente a ela. Até hoje as exposições do mês de novembro são dedicadas a ela, a qual reina absoluta em todas mostrando toda a beleza das suas variedades.

                

    Lp. sanguinea “Deschamps”                                                           Lp. sanguinea “279#1”

Até a década de 70, a quase totalidade das plantas colecionadas havia sido coletada no litoral dos estados do sul, habitats da espécie.

Desafortunadamente nessa época iniciou-se uma intensa exploração imobiliária desse habitat que praticamente extinguiu ou levou a proximidade da extinção, essa espécie, nos lugares onde por milhares de anos reinou absoluta. A ilha de Santa Catarina chegou a ser comparada a um orquidário natural, tamanha a quantidade de orquídeas que vegetavam nela.

Nessa mesma época, entretanto, alguns colecionadores e comerciantes aproveitando o progresso que ocorrera nas últimas décadas no cultivo assimbiótico de orquídeas, começaram a fazer cruzamentos da espécie, com interesses comerciais ou apenas de multiplicação e melhoria da espécie.

Vistos com descrença pela maioria dos colecionadores tradicionais, suas plantas eram tratadas com preconceitos e nem eram admitidas em competições.

“Plantas de laboratório”, era o rótulo discriminador.

Felizmente o tempo e a qualidade das plantas produzidas sepultaram esses preconceitos e hoje quase todas as plantas de qualidade técnica apresentadas em exposições são fruto desse trabalho.

Alguns clones de mato, entretanto, permaneceram imbatíveis até hoje. Como exemplos podemos citar a L. purpurata roxo-violeta “Crente”, a canhanduba “Domingos”, a oculata “Pedreira” e a josephinaeKnoll”, entre outras.

Nenhuma planta de cruzamento ainda as superou de forma destacada!

Acreditamos, porém, que é apenas uma questão de tempo. Hoje, a maioria dos orquidófilos, principalmente os mais novos, tem o hábito de cruzar suas melhores plantas.

                   

Lp. rubraLapurpurata                                                                        Lp. striata “Laranjeira”

Esse, aliás, foi um dos nossos maiores motivos quando nos iniciamos nessa arte que é cultivar orquídeas.

Ter a chance de melhorar aquilo que a Natureza produziu, selecionando caracteres, misturados durante milhares de anos, escolhendo matrizes com potencial para a melhoria genética, segundo os “nossos” padrões e não apenas aqueles necessários à sobrevivência e perpetuação da espécie na natureza.

Um grande desafio!

Sim, porque os objetivos dos colecionadores em geral, são bastante diferentes daqueles da Natureza.

Flores arredondadas, cores mais intensas, precocidade, apresentação floral, são itens valorizados e não apenas a atração dos polinizadores.

Cabe aqui, entretanto, um alerta: torna-se imperiosa a preservação dos clones de mato, colecionados no passado, hoje ameaçados de desaparecimento com o surgimento de plantas muito superiores tecnicamente, através dos cruzamentos.

Esse alerta, extremamente válido e oportuno, foi dado pela botânica Lou Menezes, em artigo no Boletim CAOB, preocupada com o desaparecimento dos clones antigos das coleções e exposições.

Hoje, felizmente, já existe a preocupação em muitos orquidófilos, de preservar essas plantas a lado das novas aquisições.

O melhoramento da Laelia purpurata tem sido muito grande nos últimos 20 anos, em quase todas as suas trinta variedades, aceitas atualmente pelo regulamento de exposições da Federação Catarinense de Orquidófilos – FCO.

Lp. venosaLapurpurata

Albas, semialbas, ardósias, roxo-bispo, cárneas, russelianas, só para citar algumas, foram e estão sendo objeto de muitos cruzamentos.

Mas nenhuma variedade teve melhoramento tão acentuado quanto um grupo que carinhosamente chamamos de “vermelhas”, que inclui as sangüíneas, rubras, flâmeas, striatas e venosas.

Sendo provavelmente o grupo que mais chama a atenção por suas cores vibrantes, era natural que fosse um dos primeiros alvos dos hibridadores.

Sem sombra de dúvida, o melhor trabalho desenvolvido nessas variedades foi feito por Walter Haetinger, médico e orquidófilo de Porto Alegre, que durante mais de 40 anos dedicou-se ao melhoramento desse grupo, de maneira quase obsessiva, resultando em plantas de cores e formas até então jamais vistas.

O resultado de seu trabalho permaneceu durante muitos anos como o sonho de todo purpurateiro.

Infelizmente, o Dr. Haetinger era do tipo que não dava, não emprestava e não vendia suas plantas! Ou melhor, vendia pequenas mudas a preços astronômicos a um grupo selecionado de purpurateiros do Rio Grande do Sul. Seu medo de perder a supremacia nas purpuratas era tanto que suas plantas eram colocadas em exposições somente algumas horas e com os vasos envoltos em sacos plásticos. Uma vez, em São Leopoldo, perguntei-lhe o porquê dos sacos e ele me respondeu que alguém poderia tirar um pedaço de raiz e clonar a planta!

Com sua morte em 1989, perdeu-se também um vastíssimo conhecimento sobre matrizes e melhoramento das purpuratas, já que ele jamais compartilhou seus conhecimentos e suas descobertas!

Com o surgimento de plantas de qualidade em outros hibridadores, como Aldomar Sander, de Osório-RS, principalmente com o uso da lendária Laelia purpurata striata “Milionária”, como matriz, alguns clones famosos da coleção Haetinger começaram a ser negociados, sempre a preços exorbitantes. Foi um grande avanço. Ter essas matrizes disponíveis, mesmo a preços elevados, sempre foi o nosso sonho. Em poucos anos, Cláudio Deschamps, purpurateiro famoso de Florianópolis e meu colega de viagens e sócio informal nas orquídeas, e eu, adquirimos as flâmeasEwelin”, “Petersen”, “51”, “Bela” e sangüinea “Rainha”, além de vários outros clones menos famosos.

De posse desse material genético fabuloso, iniciamos nosso programa de cruzamentos. Depois de anos de planejamento, discussão e pesquisa, finalmente iríamos testar nossas idéias acerca do melhoramento das vermelhas.

Fizemos diversos cruzamentos com todas as variedades do grupo. Um dos primeiros a florir foi um “sibling cross”, cruzamento de duas plantas irmãs, do famoso cruzamento 884 do Dr. Haetinger, do qual haviam saído as melhores vermelhas.

Tínhamos certeza de que o resultado seria bom, mas não imaginávamos que logo a primeira planta a florir, em apenas quatro anos e meio, tivesse tamanha qualidade!

Sépalas perfeitas, estriadas de vermelho, pétalas planas e quase inteiramente púrpura intenso, labelo totalmente púrpura, inclusive por fora, formando em bonito contraste com a junção das pétalas e sépalas, de cor mais clara.

Enfim, uma flâmea quase perfeita!

Lp. flâmeaLapurpurata

Muitas se seguiram do mesmo e de outros cruzamentos e muitas ainda virão.

Muitos orquidários comerciais, através de outras linhagens, também têm conseguido bons resultados nessas variedades Atualmente, podemos admirar, nos meses de novembro/dezembro, em muitos orquidários, principalmente no sul do Brasil, a festa das “vermelhas”, agora em número muito maior e com qualidade cada vez melhor!

O melhoramento não acaba jamais, o ideal está sempre um passo adiante de nós!

 

Carlos Gomes

Floripa-2002

Orquidário Carlos Gomes

www.lapurpurata.com.br