GRANDES MATRIZES
Laelia purpurata “Deschamps”
Uma grande surpresa estava reservada para aqueles que visitaram a Exposição Estadual de Orquídeas em novembro de 1995 em Florianópolis-SC, realizada no Hotel Cabanas da Praia Mole.
Essas exposições estaduais reúnem todos os anos, em uma determinada cidade, o que existe de melhor em Laelia purpurata no Estado de Santa Catarina.
Como em todas as exposições de âmbito estadual, os orquidófilos se esforçam e torcem para que suas plantas estejam no auge da floração nessa época. Quem cultiva plantas de cruzamentos (que inclui quase todos os orquidófilos hoje em dia), torce para que a sorte lhe sorria. Essa “sorte”, entretanto, não é fruto do acaso. Não basta comprar plantas de qualquer cruzamento e esperar. É preciso conhecer as matrizes e acompanhar ano após ano o desempenho das mesmas. Às vezes, basta um cruzamento para revelar o potencial de uma planta, e o orquidófilo atento terá mais chances de aproveitá-la.
É claro que plantas boas e até mesmo excepcionais podem florir com qualquer um que compre “seedlings” ou mesmo, que faça seus próprios cruzamentos. A quantidade de plantas boas, entretanto, será muito maior para o orquidófilo observador e com certo “olho clínico”.

Foto Francisco Miranda
São essas qualidades que fazem com que o orquidófilo e amigo Cláudio Deschamps venha se destacando, ano após ano, nas exposições de Laelia purpurata.
Seu grande amor pelas purpuratas e seu “feeling” na hora de comprar “seedlings”, têm nos trazido gratas surpresas nos últimos anos. Uma das maiores, objeto desse artigo, foi a Laelia purpurata “Deschamps”, prêmio máximo da Exposição Estadual de 1995. Considerada a melhor purpurata já produzida em cruzamentos até então, a mesma encantou todos que tiveram o privilégio de visitar aquela exposição.
Fruto de um cruzamento pouco “chamativo”, do Orquidário Sander, entre L. purpurata “Jaime Carneiro” e L. purpurata “Campeira”, essa planta conseguiu reunir todas as boas qualidades das matrizes, sem os seus defeitos.
A Laelia purpurata “Deschamps” é uma planta tipo (segundo o regulamento da Federação Catarinense de Orquidofilia), com qualidades pouco comuns na espécie.
De porte avantajado, possui flores com muita substância, o que lhe garante uma boa armação, coisa rara nas flores muito grandes. Possui sépalas e pétalas largas e planas com colorido rosa suave. O labelo é grande e perfeito de forma, com colorido púrpura intenso. E para dirimir quaisquer dúvidas, a planta foi apresentada com duas frentes floridas, cada uma com cinco flores!
Realmente uma apresentação fantástica!!! (veja a foto acima, feita por Francisco Miranda)
Sendo uma das poucas grandes revelações da década de 90, logo chamou a atenção dos grandes colecionadores. Assim, logo depois foi negociada com dois grandes orquidófilos do sul, por uma verdadeira coleção de outras plantas de excelentes qualidades, que há muito estávamos, Cláudio Deschamps e eu, esperando.
De posse desse material tão notável, não perdemos tempo e logo fizemos vários cruzamentos, os quais começaram a florir em 2001. Mas foi no ano passado, em 2002, que tivemos a floração de quase todos os cruzamentos com o “tipão Deschamps”, como ficou conhecida. Já nas primeiras plantas que floriram, percebemos que se tratava de uma grande matriz. À medida que iam florescendo os cruzamentos ficávamos cada vez mais encantados, a tal ponto que já não sabíamos o que fazer de cruzamentos com as filhas, tal a quantidade de plantas boas à disposição.


Cruzamento 343 Cruzamento 327 Cruzamento 341
Tipos claros, tipos, tipões (planta tipo de tamanho grande), que no conjunto chamamos simplesmente de “rosadas”. Ter uma grande quantidade de plantas floridas de cruzamentos de uma mesma matriz é coisa que poucos orquidófilos têm oportunidade de ver na vida. Desse modo, tivemos oportunidade de estudar o comportamento do “tipão Deschamps” em vários cruzamentos e ver quais de suas características eram dominantes e quais eram recessivas.
Uma das características mais marcantes é o seu labelo perfeito, púrpura escuro, sem manchas, herdado da “tipo Jaime Carneiro” e transmitido para quase todas as suas filhas. Uma das exceções foi o cruzamento com uma planta do cruzamento de número 41 do nosso amigo Benoni Zacaron, que já possuía a “tipo Campeira”, que possui labelo pequeno, em sua ascendência. Com duas vezes a “tipo Campeira” no “pedigree”, a maioria das plantas desse cruzamento saiu com labelo pequeno também.
Isso mostra a importância da observação dos mínimos detalhes das matrizes, em qualquer cruzamento. Somar defeitos, mesmo dos avós, é fatal.

Cruzamento 327
Num dos cruzamentos que floriram, tínhamos utilizado uma semi-alba, flor grande, cheia e de boa forma, com o objetivo de fazer tipos de flores também grandes. Para nossa surpresa, uma das plantas saiu semi-alba, de forma excepcional e para variar, no orquidário do Claudio Deschamps, também famoso pela “sorte” em tirar plantas boas.
O esperado desse cruzamento eram plantas tipo, dada a dominância das mesmas. Esse ano, com a floração de outras plantas desse cruzamento, nós devemos esclarecer esse estranho comportamento.
Outra característica das filhas do “tipão Deschamps” é o crescimento atarracado, forte, típico de plantas tetraplóides.

Cruzamento 327
Obviamente, já nas primeiras florações fizemos diversos cruzamentos entre as filhas e com plantas de linhagens diferentes. A expectativa é grande e dentro de alguns anos saberemos se o “tipão Deschamps” além de boa mãe também é boa avó.
Carlos Gomes
Floripa – 1996
Orquidário Carlos Gomes