Os descendentes de “Anita Garibaldi”

 

 

C. leopoldii forma pelórica “Anita Garibaldi”

Um dos aspectos mais apaixonan­tes da arte de cultivar orquídeas e que nos cativou desde que começamos a estudá-las e colecioná-las no início da década de 80, é a possibilidade de, através de cruzamentos e do uso dos conceitos básicos de genética, con­seguir melhorar, do ponto de vista téc­nico, mesmo as espécies mais visto­sas, além de produzir flores com no­vas características, seja cruzando-se plantas de mesma espécie ou de es­pécies diferentes.

Do ponto de vista genético, as pos­sibilidades são sempre enormes quando cruzamos duas plantas. As suas cargas genéticas são mistura­das e sobressairão as características dominantes. Se as duas plantas fo­rem escolhidas com alguns critérios, as chances serão muito ampliadas. Devido ao tempo relativamente longo para se ver os resultados (em média cinco anos), é aconselhável que o orqui­dófilo antes de começar a fazer cru­zamentos, estude os conceitos bási­cos de genética e mais im­portante ainda, que obser­ve os resultados (bons ou ruins) de cruzamentos fei­tos por outras pessoas.

Orquidófilos experien­tes são sempre excelen­tes fontes de pesquisa.

A falta de critérios e conhecimen­tos básicos tem levado muitos orqui­dófilos a desistirem de cruzamentos. Após longos anos de espera os re­sultados podem ser frustrantes. Mas a renovação da orquidofilia passa ne­cessariamente por novas plantas se­jam híbridos ou espécies. Nada mais desanimador do que ver ano após ano as mesmas plantas nas exposições.

Bem, mas o que isso tem a ver com "ANITA GARIBALDI" ?

Pelo que sabemos, ela não foi orquidófila!

Os descendentes do título desse artigo são na verdade as plantas re­sultantes dos cruzamentos que vimos fazendo com um clone excepcional de Cattleya leopoldii forma pelórica en­contrada em Laguna, SC. Devido a sua origem homenageamos a heroí­na daquela cidade dando o nome de C. leopoldii forma pelórica "ANITA GARIBALDI".

Essa planta, que corresponde a C. intermédia aquinii, tem suas pétalas transformadas em labelos com colo­ração fortemente purpúrea e com as sépalas marrom esverdeadas.

    Num próximo artigo contaremos a história dessa planta extraordinária.

    Assim que conhecemos essa plan­ta, ficamos entusiasmados com as possibilidades de cruzamentos tendo visto o que a C. intermédia aquini con­tribuiu e continua contribuindo com os híbridos e mesmo na espécie. Dessa forma iniciamos uma série de cruzamentos com plantas que apre­sentassem labelos com alguma ca­racterística marcante.

Porque o labelo? Bem, já que a C. leopoldii "ANITA GARIBALDI " possui as pétalas transformadas em labelos e sabendo que esta característica se transmite numa percentagem da pro­gênie, na C. intermédia aquinii, ima­ginamos que o mesmo iria ocorrer. O que não imaginamos é que tivésse­mos plantas tão perfeitas já na primei­ra geração, como as plantas que estamos mostrando neste artigo, re­sultante do nosso cruzamento núme­ro 61: C. forbesii "PONTE" x C. leopoldii "ANITA GARIBALDI", cujo híbrido primário leva o nome de C. dayana e que demos os nomes de “CG1” e “CG2”.

 

 

                                      

C. dayana “CG1”                                                                    C. Dayana “CG2”

 

A C. forbesii em questão é uma planta quase albina com pétalas e sépalas verde claro e labelo com o tubo branco externamente e amarelo com estrias douradas internamente.

Essa planta foi encontrada há mui­tos anos ao lado de uma ponte, no rio Itajai, durante uma viagem que fazía­mos com o colega Osmar Tessmer.

Desse cruzamento aproximada­mente 30% das plantas saíram fla­meadas, com diversos graus de intensidade, mas sempre mostrando as estrias da C. forbesii nas flâmeas. Como era esperado, nenhuma planta saiu pintada. É que as pintas são recessivas quando cruzamos plantas pintadas com plantas não pintadas, como as Laelias, por exemplo, ou mes­mo Cattleyas sem pintas como a forbesii.

Aproximadamente 80% das plan­tas saíram com as características de ambas as plantas bem misturadas enquanto mais ou menos 10% saíram mais parecidos com a C. forbesi e 10% mais parecidos com a C. leopoldii típi­ca.

As plantas floriram com quatro anos após a semeadura e florescem duran­te todo o verão.

C. leopoldii trilabelo X C. bicolor brasiliensis            C. leopoldii trilabelo X C. bicolor minasgeraiensis

 

A descendência de "ANITA GARI­BALDI" continua a nos trazer surpre­sas agradáveis e já vimos flores espetaculares dos cruzamentos de C. velutina, C. bicolor, BLC. memória Helen Brown, L. pumila e obviamente com a própria C. leopoldii da qual usamos a planta tipo, a variedade flâ­mea, a albina e a coerulea. Temos ainda a florir cruzamentos com C. aclandiae, C. schilleriana, LC. Amber Glow, B. perrini Gen. Osório, C. intermédia aquinii I, Ep. Mariae, L. pur­purata Milionária, etc.

C. leopoldii trilabelo X C. aclandiae

Como se pode ver, os próximos anos serão de muita expectativa e temos certeza de que elas serão superadas. É com este entusiasmo que espera­mos incentivar outros orquidófilos para que também façam cruzamen­tos de suas espécies ou híbridos preferidos. E lembre-se: se não fizermos cruzamentos agora, o que veremos daqui a cinco anos?

 

Carlos Gomes

Floripa-1996

Orquidário Carlos Gomes