Cattleyas intermedias e orquidófilos
(viagem ao sul)

C. intermedia puntata “Deschamps” (cruzamento 442)
Em fins de setembro do ano passado (2001), tivemos uma floração muito boa de Cattleya intermédia, oriunda de alguns cruzamentos nossos. Ao admirarmos e comentarmos a qualidade de algumas dessas plantas, Cláudio Deschamps, meu colega de orquídeas, e eu, resolvemos retornar a um antigo hábito, de quase vinte anos, que era de visitar alguns amigos orquidófilos do Rio Grande do Sul, na época da floração das intermédias para vermos, compararmos e tentarmos negociar algumas matrizes. Esse hábito havia sido interrompido por alguns anos, por diversas razões, entre elas a dificuldade de se conseguir matrizes dignas de se usar em cruzamentos. Após mais de vinte anos cultivando e cruzando orquídeas, ainda contávamos com poucas matrizes de qualidade em C. intermedia. As poucas que conseguimos, entretanto, mostraram-se excepcionais, melhorando muito, as variedades usadas. Agora, vendo esse resultado, nos animamos e resolvemos reiniciar esse hábito que nascera no começo da década de oitenta e que, felizmente para mim, coincidiu com o início dos cruzamentos que fariam o melhoramento fantástico observado hoje na C. intermédia, em algumas coleções do sul do Brasil.
Muitos orquidófilos não entendem como uma orquídea simples como a C. intermedia consegue despertar paixões tão grandes.
Mas é só começar a conhecer (e possuir!) suas mais de trinta variedades, de formas e coloridos mais diversos que essa paixão surge naturalmente. No reino das C. bifoliadas, só a C. walkeriana rivaliza com ela em variedades e em paixões.

C.i. cerúlea C.i. bergeriana cerúlea C.i. “Figueirinha”
Ainda lembro, passados quase vinte anos, da primeira visita aos dois maiores colecionadores de intermédia do Rio Grande do Sul, mais precisamente de Novo Hamburgo, Otto Georg e Anselmo Mena Of, que juntamente com Manfredo Hübner, gaúcho radicado agora em Garopaba, SC, vasculharam durante anos os habitats da intermédia.
A profusão de flores das mais variadas cores e formas e a quantidade de histórias de cada uma, contadas sempre com muitos detalhes e alegria, eram emoção garantida para o jovem orquidófilo, sedento de conhecimentos e de plantas.
Praticamente todas as plantas eram coletadas, a maioria no Banhado do Taim, hoje reserva ecológica no sul do RS.
Quase todas já possuíam pétalas levemente mais largas que as sépalas, condição básica para uma boa intermédia da época.
Vendo essas coleções, com dezenas de plantas de qualidade, ficava difícil separar o bom do excelente. Nessa época, adquiri o hábito de, após o impacto inicial, ao ver uma grande coleção de plantas floridas, ir selecionando pouco a pouco, como se estivesse num julgamento, até que restassem apenas quatro ou cinco plantas, aquelas que eu gostaria de comprar ou trocar e usar para cruzamentos. Era a única maneira de não ficar perdido entre tantas plantas de qualidade.
É claro que, normalmente, essas plantas não estavam disponíveis para troca ou venda!
Mas sempre me recusei a utilizar plantas comuns e por isso, durante muitos anos, apenas comprei seedlings, na esperança de conseguir plantas melhores e uma ou outra matriz, sempre a peso de ouro!
Assim, fomos acompanhando ano após ano o melhoramento das intermédias, com Otto e Anselmo em Novo Hamburgo, com Sander em Osório, com Alceu Berger em Santa Cruz do Sul, com Benoni Zacaron em Turvo-SC, com Manfredo Hübner em Garopaba-SC, e com o Dr. Walter Haetinger de Porto Alegre. Esse, com apenas duas plantas entre tantas que produziu, marcou sua presença para sempre no melhoramento e criação de novas variedades das intermedias.
A meu ver, duas variedades produzidas pelo Dr. Haetinger merecem destaque especial: a C. intermedia flâmea cerúlea e a C. intermedia aquinii alba.
A cerúlea pude ver em primeira mão, junto, é claro, com dezenas de orquidófilos, numa exposição em Estância Velha -RS, nos anos oitenta.
Lembro da incredulidade de todos ao ver aquela cor azulada numa flâmea belíssima! As teorias eram muitas, mas ninguém tinha certeza de como produzir tal variedade, já que Dr. Haetinger mantinha seus cruzamentos guardados a sete chaves!
A aquinii alba (se é que se pode chamar assim), eu conheci de fotografia numa das visitas anuais que fazíamos ao famoso hibridador. Sua origem era outro mistério.
Alguns anos depois, entretanto, a segunda planta dessa variedade a florir, de um cruzamento ocasional semeado por Benoni Zacaron, viria a florir exatamente em minhas mãos! Dá para imaginar a emoção? Eis aí a vantagem de se comprar seedlings!
Eu a batizei de C. intermedia “Branca de Neve”, ilustrada na foto abaixo:

Com essas variedades, Dr. Haetinger mostrou que havia um caminho muito grande para novas variedades de C. intermédia, como as aquiniis e flâmeas que hoje temos nos coloridos albas, concolores, suaves, ametistinas, cerúleas, vinicolores, frezinas, etc., todas resultantes de cruzamentos.
Em paralelo, certamente influenciado pelo trabalho de melhoramento do Dr. Haetinger, Otto Georg, após montar uma grande coleção de matrizes iniciou um magnífico trabalho de cruzamentos, juntamente com Anselmo Mena Of e o suporte técnico de Harusi Hiwasita, de Cotia-SP, que o levaram a ter, hoje, uma das melhores coleções do mundo, em C. intermédia!
Mas voltemos à viagem de 2001: nessas viagens, a primeira parada quase sempre é em Osório, para visitarmos o Orquidário Sander e trocarmos idéias, plantas, novidades e tomarmos um chimarrão.

Sergio, CG, Sander e Cláudio Deschamps
Como sempre, fomos bem recebidos! Conversar com Aldomar Sander sobre orquídeas é um grande prazer e uma excelente fonte de informações, pois ele não é de manter segredos sobre plantas.
Conversamos e admiramos sua grande coleção que estava em plena floração, com plantas admiráveis. Fizemos alguns negócios, entre eles uma excelente intermédia cerúlea e rumamos para Novo Hamburgo.
Chegamos à noite e como de costume fomos jantar, com Otto, numa das galeterias da cidade (onde o número de variedades de frango servido é quase igual ao das intermédias!).
No outro dia, bem cedo, já estávamos de volta ao orquidário do Otto, dessa vez para olharmos e fotografarmos com calma e, é claro, tentar algum negócio.
Estávamos acompanhados de Cláudio Deschamps, purpurateiro confesso, mas também grande apreciador das intermédias, de Osmar Silva, presidente da SOF – Sociedade Orquidófila de Florianópolis e Antonio Papior, secretário da SOF.
Visitar Otto nas florações das intermédias e purpuratas é sempre uma alegria muito grande, mesmo para quem já conhece a coleção dele há muitos anos.
O seu gosto apurado e o profundo conhecimento, aliados a mais de quarenta anos de coleção e sua simpatia natural, transformam qualquer visita numa aula fantástica, ilustrada com flores, fotos e muitas histórias. Apesar disso, Otto é uma pessoa que não se vangloria da coleção que tem (infelizmente também não abre mão das melhores plantas!!).
Nas fotos que ilustram esse artigo, podemos ver o nível em que se encontra a C. intermédia na coleção de Otto Georg, resultado do melhoramento genético que ele conseguiu nos últimos vinte anos.

Cláudio Deschamps, Carlos Gomes, Otto Georg e Manfredo Hubner
A propósito do melhoramento genético de orquídeas em geral e da intermédia em particular, lembro de alguns artigos publicados aqui no Boletim da CAOB, com vários pontos de vista sobre o assunto.
Fazendo cruzamentos há exatos dezessete anos, com esse objetivo, nem preciso dizer que sou totalmente favorável ao melhoramento genético das orquídeas, sejam espécies naturais ou híbridas.

C.intermedia flâmea “Otto”
Colecionar plantas de mato já perdeu o sentido há, pelo menos, trinta anos, com o aperfeiçoamento dos métodos de semeadura e clonagem.
Além disso, ter todo um potencial genético nas mãos e não explorá-lo é algo não muito inteligente. Certamente alguém o fará!
E mais tarde estaremos importando essas mesmas plantas, como estamos fazendo no momento com híbridos.
O excelente artigo do Prof. Ernesto Pasterniani, no Boletim nº 32, de 1998, ilustra com perfeição essa idéia. As inúmeras variedades do cão doméstico, conseguidas pelo Homem, a partir do lobo selvagem, em milhares de anos de cruzamentos seletivos, nos trouxe hoje, a possibilidade de escolher o nosso melhor amigo, com as características mais condizentes com o nosso ambiente, seja apartamento, casa, chácara ou fazenda.
E o que dizer da tulipa, melhorada ao extremo, a partir de espécies nativas, hoje completamente irreconhecíveis como tulipas!
Podemos afirmar que em C. intermédia e em L. purpurata, já estamos num nível em que as plantas nativas (com raras exceções) já estão completamente irreconhecíveis como ancestrais, tal como o São Bernardo e o Poodle em relação ao lobo.

C. intermedia concolor Otto C. intermedia “Princesa Diana”
O nosso amigo Oscar Sachs, editor do boletim CAOB, manifestou sua preocupação com as espécies melhoradas “artificialmente”. Sim, elas existem, é bem verdade.
A maioria, inclusive, por desconhecimento da pureza das matrizes utilizadas, aqui no Brasil ou lá fora pelos hibridadores. Uma pequena parte deles, também é verdade, age com interesses escusos, visando o lucro imediato. Felizmente essa minoria tem vida curta.
Orquídeas são para toda a vida, e, mais cedo ou mais tarde, a verdade aparecerá.
O que nos preocupa de verdade, são aqueles que, intempestivamente jogam todos os produtores numa vala comum, assim que botam os olhos numa planta melhor que a maioria da espécie, e que naturalmente ainda não a possuem.
Devemos lembrar que, a maioria dos produtores faz um trabalho sério, honesto e pesado. Quem não acredita que vá produzir orquídeas!
Mas voltemos à viagem... após fazermos alguns negócios com Otto e fotografarmos as plantas, rumamos para Santa Cruz do Sul, terra do fumo e de Alceu Berger, outro apaixonado pelas C. intermedias.
Nossa visita coincidiu com uma Exposição Estadual, de modo que pudemos visitar uma exposição muito bem organizada e com plantas de alto nível. Para nossa surpresa, uma das melhores plantas da exposição era justamente aquela C. intermedia cerúlea, da qual havíamos comprado uma muda do Sander, em Osório.
Visitar Alceu Berger é ter certeza de conversar com uma pessoa de idéias bem definidas e de teorias interessantes sobre as intermédias.
Trabalhando intensivamente com elas, Berger tem produzido algumas plantas de alto nível e já defendeu, no Boletim, suas idéias sobre o alargamento das pétalas da intermédia, utilizando a variedade aquinii.
Confesso que também acreditei durante anos nessa teoria e fiz muitos cruzamentos nesse sentido, mas os resultados que obtive com intermedia e leopoldii, das variedades aquinii e trilabelo, cruzadas com plantas tipo, não a confirmaram.
O resultado, em centenas de plantas floridas, foi de plantas com pétalas normais e uma percentagem de flâmeas, aquiniis e trilabelias. As de pétalas largas, sem manchas ou máculas, ainda estamos esperando! (Nota: ver trabalho sobre as variedades de C. intermédia, de 2005)
Temos conseguido pétalas largas em intermédias com o uso de plantas de pétalas largas coletadas no Taim, como a tipo Figueirinha.
Aliás, considero a Figueirinha, juntamente com a tipo Quantum (certamente uma tetraplóide), as melhores matrizes existentes para o alargamento das pétalas das intermédias tipo, com possibilidade de melhorar qualquer outra variedade, como estamos fazendo com as “orlatas”, da qual já obtivemos plantas com pétalas bem mais largas que a maioria das orlatas que conhecemos.
Mas sabemos que ainda estamos longe daquilo que sonhamos!
Voltemos ao Berger... após fazermos negócios, conversarmos sobre cruzamentos e admirarmos sua floração, onde se destacava uma peloriada alba muito boa, fomos brindados com um gostoso café da tarde oferecido pela Sra. Berger, dona Ely, com direito à vários tipos de pães e doces deliciosos da cozinha alemã.

C. Deschamps, Valentin, Finho, Alceu, dona Ely e Nadir Alceu Berger, dona Ely e Carlos Gomes
Retornamos a Florianópolis, com a temperatura baixíssima, 3 ou 4 ° C e um vento geladíssimo.
Trouxemos algumas plantas e duas certezas... estamos no caminho certo e na floração de 2002 voltaremos!
Carlos Gomes
Floripa – 2002
Orquidário Carlos Gomes